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domingo, 31 de julho de 2016

As leituras do Prof-Folio: O autor da semana... Donna Leon (1)

"Acreditava que livros são um espelho da pessoa que os guardou."
Donna Leon



Donna Leon é a mais célebre autora de policiais da atualidade, sendo muitas vezes comparada a Agatha Christie.
Nasceu nos E.U.A., em 1942, e viveu na Suíça, na Arábia Saudita, no Irão e na China, onde trabalhou como professora, até se fixar em Veneza, há 30 anos, e dedicar-se completamente à escrita. Internacionalmente reconhecida como a rainha do crime, optou por manter o anonimato em Itália, não permitindo a tradução dos seus livros para o idioma do país onde vive.
As suas obras já lhe valeram diversos prémios, incluindo o Suntory Grand Prize e a Adaga de Prata da Associação de Escritores de Policiais, atribuída ao livro Amigos Influentes. Foi também considerada pelo The Times uma das 50 Melhores Escritoras de Policiais.
É a criadora da série de bestsellers internacionais protagonizada por Guido Brunetti, ambientada em Veneza. Guido é um comissário de polícia inteligente e capaz, que reporta ao vaidoso e gabarolas Vice-Questore Patta e conta com a ajuda do Sargento Vianello e da Signorina Elettra (a secretária altamente competente e bem relacionada de Patta).
Cada caso do comissário é uma oportunidade para a autora revelar aspetos obscuros do submundo de Veneza e diferentes facetas da sociedade italiana. Nos seus livros encontramos muitas vezes figuras peculiares e interessantes, como vítimas encantadoras que despertam compaixão, assassinos compassivos que não merecem castigo ou criminosos tão perversos que nunca chegam a ser apanhados.
Até há pouco tempo, a autora fazia crítica de policiais para oSunday Times; agora escreve “apenas” livros, sem seguir nenhum sistema de escrita ou autodisciplina. A única regra, confessa, é nunca desligar o computador sem dar início à cena seguinte.
A sua obra foi traduzida para 35 línguas e está publicada em todo o mundo; afinal de contas, quem resiste a uma história de crime e mistério bem contada?

Bibliografia de Donna Leon:

Death at La Fenice (1992)
Death in a Strange Country (1993)
The Anonymous Venetian aka Dressed for Death (1994)
A Venetian Reckoning aka Death and Judgment (1995)
Acqua Alta (1996)
The Death of Faith aka Quietly in Their Sleep (1997)
A Noble Radiance (1997)
Fatal Remedies (1999)
Friends in High Places (2000)
A Sea of Troubles (2001)
Wilful Behaviour (2002)
Uniform Justice (2003)
Doctored Evidence (2004)
Blood from a Stone (2005)
Through a Glass Darkly (2006)
Suffer the Little Children (2007)
The Girl of His Dreams (2008)
About Face (2009)
A Question of Belief (2010)
Drawing Conclusions (2011)
Beastly Things (2012)
The Golden Egg (2013)
By Its Cover (2014)
Falling in Love (2015)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A Música da nossa Vida...

A Opinião... do Prof-Folio - Ser Português...

A propósito do grande feito da nossa seleção, Mafalda Anjos, Diretora da revista Visão é autora deste texto brilhante sobre o que deverá ser o sentir do povo Português.

Estão a ver aquele canto esquecido da Europa, lá mesmo ao fundo, longe das linhas de TGV, dos fiordes e dos canais, das cordilheiras e das planícies centrais? Aquele terreno entalado entre os espanhóis e um oceano gigante, lá para trás do sol posto, onde Judas perdeu as botas?
Diz que é terra de gente desorganizada, xico-esperta, cábula, trapaceira. Um povo de preguiçosos, fracos, deprimidos. Mandriões, subservientes, abatidos. Indolentes, sonolentos, cabisbaixos. Diz que nos falta muito, tanta coisa. Falta-nos o método, o foco e a capacidade analítica. Falta-nos perspetiva, visão estratégica, capacidade de desenhar planos de longo prazo.
Diz que somos uns tristes, nojentos, porcos. Abaixo de cão. “Dégueulasses”, portanto.
Sabem lá vocês, oh mundo!
Aqui há um povo nobre. Gente que não se resigna, que faz das fraquezas forças, que cai e se levanta, que renasce. Gente que constrói um império a partir de um nico de terra, que se atira ao Oceano sem saber o que esperar para lá das nuvens e da curva do horizonte. Gente que não se apequena perante o tamanho do adversário, que se atira aos confrontos com a atitude de quem tem pouco a perder.
Gente que não desiste, que não se cala, que não baixa os braços.
Aqui vive o povo mais criativo do mundo. Um povo que vê borboletas nas traças, que desafia o razoável, tira coelhos da cartola, transforma as entranhas em poesia, o lixo em luxo e o quase nada em tanto. Que faz da tragédia glória.
Aqui vive um povo de coração a sair do peito, que acolhe, que adota, que perdoa. Que tanto grita como beija, tanto luta como chora.
Aqui vive um povo que finta o destino, que desafia a probabilidade, que contorna condenações e desalinha a ordem natural.
Somos lutadores e orgulhosos, como Ronaldo. Somos certeiros e inspirados, como Rui Patrício. Somos príncipes rebeldes, como Quaresma. Somos o herói improvável, como Éder. Somos cegamente otimistas, como Fernando Santos.
Somos grandes gigantes e hoje a taça é nossa. Venham os franceses ou alemães, as crises e as sanções, os desatinos e as confusões. Os exits e as depressões.
Somos nós o povo que arranca o prefixo de impossível. E se ele teimar em não cair, o que certamente será muito injusto, uma idiotice pegada ou um azar dos diabos, havemos de sobreviver.

domingo, 10 de julho de 2016

Debater... Férias Escolares

Hoje, trago aqui uma questão pertinente e atual, as férias escolares, que aliás é um tema comun na sequência de um manifesto, assinado por vários blogues ligados à Educação.

Trago aqui, a opinião do Paulo Guinote sobre o tema e que foi publicado no seu blogue O Meu Quintal:

Como o tema não é para esgotar com um só texto, vou deixar aqui apenas algumas linhas básicas sobre o assunto.

Em primeiro lugar, as férias escolares deve(ria)m ter como critério principal a adequação dos períodos lectivos/não lectivos aos ritmos de trabalho dos alunos, em especial dos mais novos, o que significa que me parecem absolutamente excessivos períodos contínuos superiores a 2 meses (8-9 semanas) para os alunos até ao 2º ciclo e talvez mesmo 3º ciclo. Períodos curtos de férias de uma semana, a intercalar os de trabalho, só trariam vantagens e reduziriam bastante o desgaste dos alunos e o declínio de resultados ao finalizar dos períodos.

Em segundo lugar, parece-me disparatado ignorar a latitude de cada zona e as suas condições climatéricas. Há zonas onde são necessárias pausas de Inverno mais longas e zonas onde o Estio aconselha a que pelo solstício de Verão (hemisfério Norte) já não existam aulas e assim permaneçam as coisas até perto do equinócio do Outono. Se as férias ficam muito longas assim? Podemos discutir formas de minorar esse problema, com “escolas de férias” a funcionar de forma correcta.

Em terceiro lugar, as férias escolares devem obedecer a uma lógica própria e não estarem vulneráveis aos humores e condicionalismos exógenos de uma sociedade organizada de forma desadequada e injusta, nomeadamente ao nível das condições de trabalho dos pais e famílias dos alunos. Uma sociedade justa, que efectivamente se preocupe em proteger as novas gerações, não se organiza na inversa…. submetendo crianças e jovens, desde cedo na vida a lógicas de explicação laboral. Deve organizar-se de forma a permitir que as crianças estejam em ambiente familiar a maior parte do seu dia e da sua vida. Por isso, a chamada escola a tempo inteiro é uma forma de regressão civilizacional e espanta-me muito que seja muita gente “de Esquerda” a defendê-la, rendendo-se às exigências do sistema capitalista de organização do trabalho.

sábado, 9 de julho de 2016

Entrevista a Luís Borges, Neuropediatra

Tem 78 anos, é neuropediatra, preside à Associação Nacional de Intervenção Precoce (ANIP) e continua ligado ao Hospital Pediátrico de Coimbra, instituição que lhe prestou homenagem dando o seu nome ao Centro de Desenvolvimento da Criança. Tornou-se uma referência na área das dislexias e PHDA, mas nas consultas os miúdos ouvem também outra história: «o doutor» tem défice de atenção até hoje e, por causa da dislexia, chumbou no primeiro ano da escola.







Encurtava as aulas, multiplicava os intervalos, mudava as metas curriculares, dava aos professores mais formação na área das neurociências e garantia aos miúdos mais tempo para brincar. Se pudesse, o neuropediatra Luís Borges mudava a escola. E medicava muito menos.
Ainda existem «bichos-carpinteiros» e «cabeças-no-ar»?Sempre existiram e sempre existirão. A perturbação da hiperatividade e défice de atenção [PHDA] tem uma base genética: as crianças herdam dos pais os genes que vão condicionar este tipo de comportamento. O que acontece é que, depois, o ambiente pode facilitar ou dificultar o aparecimento dos sintomas – a hiperatividade, a impulsividade e/ou défice de atenção.

A hiperatividade traz sempre associado um défice de atenção?
Julgo que sim, só que na criança mais pequena, que parece ter pilhas Duracell, o que chama mais a atenção é a hiperatividade. Mas com a idade isso vai melhorando. A hiperatividade é o primeiro sintoma a desaparecer, e fica a impulsividade e o défice de atenção.

E o contrário pode acontecer? Um miúdo pode ter apenas défice de atenção, sem nunca ter sido hiperativo?

Essa é a face mais desconhecida da PHDA, mas que na realidade corresponde de 20 a 25 por cento dos casos. São crianças que são até hipoativas, digamos assim, mas que têm défice de atenção. Chamam-lhes day dreamer ou criança sonhadora. Na sala de aula, estão lá, mas não estão. São situações mais complexas e para as quais é preciso alertar pais e professores. Desde logo, porque são crianças socialmente mais tímidas, com maior tendência para o isolamento, para a ansiedade e até a depressão. E depois, porque, estão quietinhas e não perturbam, o problema passa despercebido, muitas vezes só é detetado mais tarde.

… quando surgem os problemas de aprendizagem.
Sim. Sempre que uma criança tem fracos resultados escolares, é preciso saber porquê. Pode ter um certo atraso no desenvolvimento, mas a maior parte das vezes tem na verdade problemas de outra ordem, como os do défice de atenção ou as dislexias.

Com que idade chegam os miúdos às suas consultas?
Os hiperativos, por norma, começam a ter problemas no primeiro ano da escola. Até lá, apesar de serem crianças muito ativas, passam muitas vezes despercebidas. Os problemas surgem quando têm de estar sentados a uma secretária das 09h00 às 17h30.

Passam tempo de mais na escola?
Sim. Dizem-me: «Ah, mas a partir das 15h00 são atividades extracurriculares…» É mais do mesmo. Os professores de Música e de Inglês também lhes exigem que estejam com atenção e vão avaliá-los no final. A PHDA tem uma base genética, mas ter começado a exigir-se demasiado dos mecanismos da atenção não ajuda. Eu até acharia bem que a escola retivesse as crianças até às 17h30, porque isso facilita a vida dos pais. Mas esse tempo deveria ser preenchido com tempos livres. Ter um animador na escola e permitir que a criança jogasse à bola, brincasse, fizesse teatro, cantasse… o que lhe apetecesse. Não sou contra a Música ou o Inglês. Mas das 09h30 às 15h30 a criança devia ter tempo para todas estas aprendizagens, curriculares e extracurriculares. Como não sou contra os trabalhos de casa, mas acho que são de mais e podiam ser substituídos por atividades de leitura. As crianças precisam de brincar – e não têm tempo para isso.

Seria preciso mudar a própria escola.
Há algumas coisas que não têm que ver com a escola. Uma delas é o sono: as crianças devem dormir nove a dez horas por noite. Uma criança que dorme pouco tem dificuldade em concentrar-se e grande parte da nossa memória de longo prazo é feita durante o sono. Depois, há o desporto: a atividade motora liberta substâncias que relaxam, o que vai facilitar a aprendizagem. E há outra coisa importante: o uso exagerado dos tablets e dos telemóveis. Porque a atenção que se usa num jogo de computador é totalmente diferente da que se utiliza para ler e compreender um texto, e as crianças vão habituar-se àquele tipo de atenção… Tudo isso, eu digo aos pais. Mas sim, seria sobretudo importante mudar escola, mudar os programas, aliviar os professores da pressão das metas curriculares… Aos seis anos, é o currículo que deve encaixar na criança e não o contrário.

O que está errado nos programas e nas metas do 1º ciclo?
A velocidade com que as crianças têm de dominar a leitura, por exemplo. Os dois primeiros anos devem ser para aprender a ler. Para depois a criança poder passar a ler automaticamente e a compreender. Mas não. Se ao fim do primeiro ano o miúdo não está a ler vai começar a ter problemas e começa o seu insucesso. E depois a exigência da matemática, do cálculo… Nós aprendíamos coisas no sexto ano que hoje são dadas no quarto e o cérebro dos miúdos não melhorou de um dia para o outro. Há coisas que não estão de acordo com as capacidades das crianças. Eles conseguem, mas com grande esforço, grande stress e sem alegria. Ao nível do cérebro, quando a criança faz uma conta bem feita e tem sucesso, é libertada uma substância que gera bem-estar, a dopamina. Já o insucesso liberta as hormonas de stress, a adrenalina, que muitas vezes bloqueiam a capacidade de raciocínio. Se a criança tem medo de errar, não está em boas condições para aprender. Depois, o stress acumula-se e a motivação que é o motor para aprender não existe, a escola torna-se «uma seca».

É isso que vê nos miúdos que chegam à consulta?
Sim, miúdos stressados, muitos com problemas de sono, que muito frequentemente choram para ir para a escola, com medo de falhar… Nas crianças com PHDA isso acontece muito. Até porque outra coisa que tem que ver com os défices de atenção, que não está nas classificações internacionais, mas que devia estar, é a parte emocional. São miúdos emocionalmente frágeis, que lidam mal com a frustração, com as emoções – e muitas vezes com problemas sociais. Os colegas não os suportam porque, mesmo nas brincadeiras, não se pode contar com eles. Estão à baliza e quando o outro chuta, eles estão pendurados na trave… Querem corresponder às expetativas dos outros, mas não conseguem.

E por é que não conseguem?

No nosso sistema nervoso, aquilo a que chamamos a função executiva – que nos permite organizar, planear, executar e monitorizar o que fazemos durante o dia –, começa a desenvolver-se lentamente, amadurece e está na sua plena funcionalidade por volta dos 20 anos. E nessas crianças, o que acontece é que essa função está desenvolver-se mais lentamente, às vezes com três ou quatro anos de diferença em relação ao padrão.

Quais são as implicações práticas da imaturidade dessa parte do cérebro?

O sistema que regula as atividades que fazemos no dia-a-dia, que é o que nos permite falar enquanto conduzimos, de forma automática, por exemplo, não está a funcionar. E isso faz que falhe a autorregulação – o professor tem de lhe dizer 20 vezes para se virar para a frente. Além disso, implica com aquilo a que chamamos memória de trabalho, ou de curto prazo. Se o professor disser: «Agora abram o livro na página 23 e vão à linha nº 14 procurar quantos verbos estão no infinito…», o miúdo com défice de atenção ficou com a primeira informação, o resto já se apagou. Ele não consegue pôr na memória de trabalho essa informação toda. O professor tem de dizer-lhe o número da página, deixá-lo abrir o livro, depois indicar-lhe a linha, esperar que a encontre, e só depois explicar o resto.

Porquê?

Os miúdos com PHDA ou dislexia têm uma memória de trabalho curta. Se lhes for dado um problema de matemática, em que eles têm de primeiramente somar, para depois subtrair e dividir, eles têm de o fazer por partes. Se lerem o enunciado todo de seguida, ficam completamente perdidos… e vão responder à primeira coisa que lhes vier à cabeça. A memória de trabalho é fundamental para a aprendizagem – e fala-se muito pouco sobre isso. Os professores deviam ter mais conhecimentos sobre neurociências e a sua importância
nos processos de aprendizagem.

O sistema agrava o problema das crianças com PHDA, é isso?
O problema da PHDA tem uma base genética. Ou seja, mesmo que tudo isto fosse melhorado, continuaria a haver défice de atenção. Mas seriam menos os casos, porque se estaria a respeitar mais o ritmo de amadurecimento das estruturas cerebrais – e, muito provavelmente, haveria também menos crianças medicadas. Porque hoje em dia é fácil: a criança mexe-se muito, a professora já sabe que há um comprimido que faz que ele fique quieto, insiste com os pais… e os médicos acabam por entrar nesse jogo. Eu próprio faço isso.

Medica-se de mais para a PHDA?

Pela falta de conhecimento do que é a PHDA e de como se pode ajudar as crianças desde cedo a melhorar, medica-se demasiado, não tenho dúvida nenhuma. Se a escola não exigisse tanto, se a criança não estivesse tanto tempo na sala de aula, se pudesse ir mais vezes ao recreio, se tivesse períodos mais curtos de atenção, provavelmente as coisas podiam funcionar melhor… mas isso não acontece. E aí ficamos sem alternativa, porque ou se medica aquela criança ou ela vai ter insucesso escolar.

É uma decisão difícil…

Como os défices de atenção são uma epidemia nacional, eu acho que o assunto devia ser mais debatido e só se devia medicar mediante critérios bem definidos. Mas é preciso dizer que estamos a falar de uma medicação que em 80 por cento dos casos é eficaz e que é bem tolerada, sem efeitos colaterais. Eu próprio a tomo, aos 78 anos, todos os dias.

Utiliza o seu exemplo quando fala com os pais e com os miúdos em consulta?

A dislexia e o défice de atenção estão ligados muito frequentemente, há uma percentagem grande de crianças que têm os dois problemas – e é o meu caso. Fiz o meu próprio diagnóstico a posteriori. Quando era miúdo, o que havia era «bichos-carpinteiros» e eu era um «cabeça-no-ar». Sofri o estigma… Perdi dois anos no primeiro ano da escola primária e só à terceira é que passei. Depois, mais tarde, já na faculdade, voltei a ter problemas com a anatomia, com os nomes em latim… Conto muitas vezes isto, sobretudo aos miúdos, para eles perceberem que «o doutor», que chegou a médico e foi diretor de um serviço no hospital e essas coisas todas, perdeu anos na escola. Digo-lhes que acreditei sempre – «Eu sou capaz de chegar lá, porque sou inteligente.» E explico-lhes que é isso que eles têm de fazer, que o importante é ter confiança de que se vai conseguir.

No seu caso, o défice de atenção permaneceu na idade adulta.

A PHDA nem sempre desaparece. Afeta nove por cento das crianças, oito por cento dos adolescentes e quatro por cento dos adultos.

Isso significa que também medica alguns pais?

Frequentemente, cada vez mais. Lembro-me de um pai que estava sentado com o filho e às tantas pediu para se levantar, deu uma volta à secretária, sentou-se, depois levantou-se outra vez e encostou-se à parede. E eu a ver toda aquela atividade… Acabou por perguntar se eu não achava que a medicação lhe faria bem a ele também e eu disse-lhe: «Tenho quase a certeza que sim.» O pai tinha défice de atenção e era um pouco hiperativo. A mãe sabia. Até já tinha deixado cair…: «Senhor doutor… tal pai, tal filho!»

quinta-feira, 7 de julho de 2016

A economia do... Prof-Folio - Brexit

No dia 24 de junho, data em que foi conhecido o resultado do referendo à permanência na União Europeia do Reino Unido, os media deram amplo destaque ao acontecimento, foram horas de escrutínio intenso à decisão tomada pelos britânicos. Por curiosidade, quisemos saber qual o interesse dos portugueses no tema. Para tal, nada melhor do que saber quais as palavras mais procuradas pelos portugueses no mais conhecido motor de busca à face da terra. O resultado foi um pouco surpreendente ao descobrirmos que o termo mais procurado nesse dia foi “Ryanair”, a companhia aérea lowcost com sede na Irlanda, mas com o centro das suas operações em Londres. Ao todo foram mais de 20 mil pesquisas que indiciam preocupação com o impacto da saída do Reino Unido da União Europeia na atividade da companhia aérea, em particular nas rotas para Portugal.

Nesse mesmo dia, vários termos ligados ao referendo foram pesquisados pelos portugueses, com maior relevo sobre as pessoas que lideraram o movimento a favor da saída da União Europeia, sobre a depreciação da libra, mas também para o significado da expressão “Brexit”. No dia seguinte, dia 25, as atenções viraram-se para o Europeu de futebol, e o que os portugueses mais pesquisaram foi “Portugal Croácia”, seguido à distância pela pesquisa dos mais populares jogadores da nossa seleção. Um dia depois de ser conhecido o resultado do referendo, este deixou de ser tema para os portugueses, a julgar pelo ranking de pesquisas efetuadas na internet.

As pesquisas no Reino Unido encontram algum paralelismo com a dos portugueses. Depois de se ter verificado uma enorme procura de informação na internet sobre o referendo e as suas consequências, no dia 24, o top das pesquisas deu lugar na segunda-feira dia 27 a “England v Iceland”, referente ao jogo a disputar nesse mesmo dia entre as seleções de futebol destes dois países.

Sobre a Ryanair

Satisfazendo o interesse e preocupação demonstrados pelos portugueses na companhia aérea, o impacto nas rotas com origem em Portugal não se deverá fazer sentir. De acordo com o presidente executivo da companhia, a decisão tomada foi cancelar o lançamento de novas rotas para o Reino Unido durante o próximo ano e meio, isto é, até que os moldes da saída do Reino Unido da União Europeia sejam clarificados.

Do ponto de vista financeiro, é natural que a empresa venha a sofrer dado que mais de um quarto das receitas da Ryanair resulta da operação no Reino Unido. A companhia aérea emprega mais de 3 mil pessoas nas 13 bases que mantém nos aeroportos do Reino Unido e transporta mais de 41 milhões de passageiros por ano entre o Reino Unido e o resto da Europa.

Em consequência, as ações da empresa foram penalizadas em bolsa, caindo mais de 10% no dia 24 de junho. Nos dias seguintes manteve-se a tendência de queda, refletindo com naturalidade as expectativas de quebra das receitas. Com humor, como sempre, a Ryanair lançou uma campanha para os britânicos, incentivando-os a visitar a Europa a partir de £19,99, ilustrando a campanha com duas das principais figuras a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, sob o mote “your next Brexit”.


O Brexit e... o efeito económico

O que irá suceder à Ryanair é muito similar ao que poderá suceder com muitas outras empresas com atividade económica no Reino Unido.
Existe uma estimativa de que o impacto sobre o crescimento económico do Reino Unido será de 1,4 % em 2017 vs 0,3 % no crescimento da Zona Euro. No entanto, este impacto é incerto e difícil de prever com exatidão e a curto prazo deveremos esperar os seguintes movimentos:
1- Um aumento na taxa de poupança das famílias em detrimento do consumo motivada pelo fator incerteza
2- Maior cautela das empresas sobre seus investimentos, com uma possível deslocalização de empresas do Reino Unido
3- Uma desaceleração nos fluxos de capitais entre o Reino Unido e os restantes países

A longo prazo, a maioria dos estudos apontam para um impacto negativo duradouro sobre o PIB e prevêm até 2020 uma quebra de atividade entre 3% e 9% no Reino Unido. Ninguém ficará imune, especialmente a União Europeia, mas do ponto de vista económico, deverão ser os próprios britânicos os mais penalizados.

…. o efeito político

A mudança de governo é provável no Reino Unido. O primeiro-ministro David Cameron defendeu durante a campanha a manutenção do Reino Unido na EU, pelo que sai enfraquecido deste referendo, que dividiu amplamente o povo britânico. Embora tenha dito repetidamente que, aconteça o que acontecer, iria permanecer como primeiro-ministro após o resultado, anunciou a intenção de deixar o cargo.

A agenda política de um eventual futuro governo é completamente desconhecida nesta altura (quando é que as negociações comerciais começam? Com que objetivo? Que política fiscal será implementada?)

A decisão de deixar a União Europeia aplica-se para o Reino Unido como um todo, no entanto a Escócia, que votou maioritariamente a favor de permanecer na UE, é provável que peça permissão a Londres para organizar um novo referendo sobre a independência, a fim de permanecer na UE, um pedido que Londres dificilmente poderá recusar. Este referendo, a suceder, abrirá o caminho para pedidos semelhantes na Irlanda do Norte, onde o voto a favor da permanência na União Europeia também ganhou. Paradoxalmente, depois de convencer a maioria dos britânicos de que sozinhos serão mais fortes, vão ter que, internamente, convencer escoceses e irlandeses da Irlanda do Norte, de que, juntos, serão mais fortes. Esta batalha promete ser dura.

A reação dos mercados financeiros

Foi de pânico generalizado. O resultado final do referendo acabou por surpreender os mercados que nos dias anteriores vinham descontando uma vitória do voto a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia, em função das sondagens favoráveis que foram surgindo à medida que o dia 23, dia da votação, se foi aproximando. A reação dos mercados foi por isso de pânico, penalizando indiscriminadamente todas as classes de ativos de maior risco, principalmente as ações, por todas as principais praças mundiais.

No final da sessão de bolsa de dia 24 de junho, o balanço foi negro, e o efeito surpresa do resultado final do referendo não justifica tudo. É verdade que se trata do maior evento antiglobalização das últimas décadas, num mundo que progressivamente foi esbatendo fronteiras em prol do aumento do comércio. Subitamente a dúvida ensombrou os mercados financeiros, em particular os mercados europeus.

Se já era expectável uma forte depreciação da libra face às principais moedas de referência, dólar, euro e iene, o facto das principais bolsas terem quebrado mais do que a própria bolsa londrina permite fazer uma interpretação que vai além do pânico associado apenas ao resultado do referendo. Os mercados extrapolaram a vontade dos britânicos para outros povos europeus, descontando um progressivo desmembramento da União Europeia. É um facto que em muitos países o sentimento de pertença à causa europeia já foi maior do que o é hoje, pelo que o risco de desmembramento é real.

São vários os movimentos extremistas e anti Europa que vão surgindo e ganhando expressão nos últimos anos e, podem de facto surgir iniciativas noutros países da União Europeia similares ao referendo levado a cabo no Reino Unido. No entanto para já é prematuro fazer grandes conjeturas, até porque a União Europeia tem sido capaz de responder aos desafios de forma afirmativa, como foi o caso durante a crise da dívida soberana, com epicentro nos países da periferia europeia.

O que esperar para os próximos tempos

Depois do choque, o Brexit começa progressivamente a ser digerido pelos mercados, que têm vindo a recuperar depois das perdas avultadas registadas no dia em que foi conhecido o resultado do referendo. É expectável que possamos continuar a assistir a alguma volatilidade, embora sem tendência clara, de subida ou descida.
Uma saída do Reino Unido da União Europeia sem tensões entre as partes deverá contribuir para uma progressiva normalização dos mercados.

Em novembro deste ano teremos as eleições norte-americanas, nas quais uma possível vitória do candidato republicano Donald Trump promete agitar novamente os mercados, enquanto em abril de 2017, nas eleições presidenciais francesas, a votação do candidato do partido de extrema-direita Front National deverá ter os holofotes dos mercados no sentido de validar o sentimento antieuropeísta dos franceses, depois de confirmado o dos britânicos.

Fonte: Newsletter do Activo Bank

terça-feira, 5 de julho de 2016

A Música da nossa Vida...

Esta é uma das músicas da nossa vida...

A Cidadania do Prof-Folio: Coimbra fica na Baixa

Um sítio que mora na boca do povo com o nome de Bota Abaixo precisa mesmo que lhe deitem a mão. Há no coração da Baixa um lugar que a maioria dos conimbricences desconhece completamente. Os tapumes lá vão encobrindo como podem, ali a meio da Rua Direita, uma terra-de-ninguém que demora a ser devolvida à Cidade – ruínas da velha Coimbra enterradas depois do levantamento arqueológico, um chão esbranquiçado de areia e paredes pulverizadas em que nem as ervas encontram conforto. Houve quem imaginasse um metro ligeiro de superfície a rolar naquele chão, entre a Sofia e a Fernão de Magalhães, vindo de Serpins, da Estação Velha ou do Pediátrico – as pontas da rede que a Sociedade Metro Mondego prometeu a toda a gente. A realidade é, porém, muito mais árida do que as prometidas alamedas da mobilidade, e à cratera do Bota Abaixo viriam a somar-se os quilómetros de abandono do Ramal da Lousã, os milhões a escoarem-se nos bolsos dos oportunistas, a impunidade à solta na longa lista de gestores milagreiros do milagre da multiplicação dos buracos – os literais e os financeiros.
Há de haver, no livro de fábulas da Sociedade Metro Mondego, uma ilustração dos abutres do negócio imobiliário, de fita métrica na mão, espreitando por cima dos tapumes. Compreende-se. Quando se trata do centro das cidades, a medida de superfície deixa de ser o metro quadrado para passar a ser o cifrão quadrado, razão pela qual toda a vigilância é pouca para quem sonha, e luta, por que a Baixa volte a ter luzes nas janelas à hora em qua a Cidade se recolhe nas habitações. E há de aqueles que consideram que o trânsito automóvel é sinal de vida na Cidade, quando o que faz mesmo falta na Baixa de Coimbra é gente que ali gaste os passos.
Prepara-se para nascer a Via Central, órfã dos pais que a conceberam, para vir a ser aquilo que soubermos fazer dela. Não consta que se queira chamar àquele piso as rodas dos SMTUC, merecimento que é seu pelos tantos anos em que vem transportando esta Cidade de um lado para o outro. Não consta mas tem de constar. E haja quem grite, para que bem se ouça, que Cidade sem gente é ruína, mesmo que as paredes se levantem, inteiras, nas margens das suas ruas. E quem afirme que Baixa aberta ao trânsito farto não é Baixa, é avenida – a gente convertida em peão, serpenteando entre as latas.
A Via Central só faz sentido se for das pessoas e for do transporte público. Se for da habitação de baixo custo e do comércio para os dias todos. Se for para o lazer e para o recreio. A Via Central só faz sentido se for feita para ser Baixa – Coimbra, afinal.

Manuel Rocha in Diário As Beiras

sábado, 2 de julho de 2016

Doze meses de Escola por ano ou chegam onze?

Parece claro que seria desejável que com maior antecedência e também estabilidade fosse conhecido o calendário escolar que facilite a melhor organização das escolas e também das famílias.
A propósito desta questão que envolve o período de férias um dirigente da Confap, José Gonçalves afirmou que seria importante que as escolas permanecessem abertas com actividades lúdicas pois, cito do Público, "As crianças poderiam ficar na escola, que é o espaço em que os pais mais confiam. Além disso, era uma forma de os alunos verem ali não apenas um sítio de trabalho,mas também de lazer e diversão. Os alunos passam a gostar de estar na escola e, quando isso acontece, acabam por beber os conhecimentos que lhes transmitem."
Antes de algumas notas umas pequenas dúvidas, a saber:
As escolas estariam abertas 12 meses por ano ou seriam suficientes 11 meses conforme o presidente da Confap defendia há um ano?
A escola é “o espaço em que os pais mais confiam”, o espaço em que mais delegam competências, o espaço em que mais depositam os filhos, ou o espaço em que se sentem obrigados a deixar os filhos por falta de alternativas?
A generalidade das pessoas adoraria ter um programa de actividades lúdicas no seu local de trabalho durante as férias e ficaria com uma muito melhor relação com essa instituição pois seria um local de trabalho e um excelente parque de diversões?
Mais a sério e retomando notas antigas
O facto deste tempo tão grande de permanência na escola ser algo de pouco comum na generalidade dos países não me parece relevante como argumento embora mereça atenção.
A ideia de no sistema educativo que temos e no modelo de sociedade em que vivemos proporcionar onze meses (pelo menos) de estadia na escola é insustentável.
É verdade, sentimos todos, que os estilos de vida actuais colocam graves problemas às famílias para assegurarem a guarda das crianças em horários não escolares. A resposta tem sido prolongar a estadia dos miúdos nas instituições escolares radicando no que considero um equívoco, o estabelecimento de uma visão de “Escola a tempo inteiro” em vez de “Educação a tempo inteiro”. A Confap insiste neste caminho.
No actual quadro de organização das escolas os alunos podem estar na escola entre as 8h (ou 7:30 em algumas escolas) e as 19h (19:30 em algumas escolas), é obra!
É preciso o maior dos esforços, espaços, equipamentos e recursos humanos qualificados para que se não transforme a escola numa “overdose” asfixiante para muitos miúdos e um clima pouco positivo de trabalho para todos profissionais que nela trabalham.
É verdade que existem boas práticas neste universo mas também conhecemos situações em que se verifica a dificuldade óbvia e esperada de encontrar recursos humanos com experiência e formação em trabalho não curricular com crianças a partir dos seis anos.
Acresce que muitas escolas, fruto da concentração de alunos e do número de alunos por turma, não possuem espaços ou equipamentos que permitam com facilidade o desenvolvimento de actividades fora do figurino mais habitual de actividades de natureza escolar.
Em muitas situações, apesar do empenho dos profissionais (alguns não o são por falta de qualificação adequada), apesar dos alunos estarem “guardados” o benefício imediato é quase nulo e a consequência a prazo poderá ser a desmotivação, no mínimo.
Neste quadro, manter aos alunos onze meses na escola é de um enorme risco.
Creio que a Confap andaria melhor se promovesse, dentro das suas competências, a discussão sobre a organização do trabalho, os horários e políticas de família, para que as famílias, quando fosse possível evidentemente, pudessem ter alternativas de horários laborais que lhes permitissem mais disponibilidade para os filhos.
Seria também de explorar a possibilidade de recorrer a outros serviços e equipamentos das comunidades, desportivos ou culturais, por exemplo, que respondessem às necessidades de crianças e jovens e não mantê-los na escola, a resposta mais fácil mas com inconvenientes que me parecem claros. Aqui sim, parece-me importante o papel das autarquias.
Na mesma lógica da pretensão expressa pela Confap por que não avançar com a proposta de que as escolas estejam abertas, por exemplo, à sexta à noite de modo a permitir vida cultural ou social dos pais?
Sim, é anedótico e demagógico mas trata-se de sublinhar que, por um lado, a escola não pode ser a solução para todos os problemas das famílias, crianças e jovens e, por outro lado, nem sempre os interesses dos pais coincidem com os interesses dos filhos.

Fonte: Atenta Inquietude